Feliz Ano Novo 2009!
06/11/08 - 22h01 - Atualizado em 06/11/08 - 22h30
As casas da cidade histórica foram percorridas em busca de mais segredos dessa culinária tão recheada de histórias. Cem receitas foram catalogadas por historiadores para virar um livro.
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Os segredos da culinária mineira estão sendo estudados por pesquisadores na cidade histórica de Mariana. A reportagem é de Narriman Sible.
No sossego da roça, muito trabalho. Do alto da bananeira, o marido tira as folhas mais longas e traz para mulher na cozinha, para ela cortar uma a uma. “Para fazer o cobu. É a merenda das zonas rurais. Aí, vai fubá, a rapadura”, ensina a mulher.
Rapadura raspada, fininha, é misturada, vira massa para ser embrulhada nas folhas. No forno, as brasas são varridas com vassoura também feita à mão.
O tempo certo de calor e a quitanda está pronta. Do jeitinho que dona Lelé, ainda menina, via os mais velhos fazerem. “Vira um bolinho depois de pronto. Nós fazíamos e levávamos a merenda para a roça, para os trabalhadores”, ela conta.
As casas da cidade também foram percorridas, em busca de mais segredos dessa culinária tão recheada de histórias, de receitas que revelam os costumes do povo. Em cada cozinha, foi encontrado um ensinamento passado de geração para geração à beira do fogão à lenha.
O tempo não apagou a memória da alquimia feita pela avó. De uma fruta tão amarga. Fazer doce de sidra. “Três, quatro dias para fazer o doce. A gente era pequena e ficava encantada”, lembra Glorinha.
A sobremesa de dona Glorinha está entre as cem receitas que foram catalogadas por historiadores para virar um livro. Um patrimônio que já está sendo preservado em sala de aula. Debaixo de um pé carregado de jabuticaba, em uma cozinha de quintal.
“Aprendi a fazer fubá suado, cuscuz, cobu, frango com ora-pro-nóbis”, afirma uma mulher.
Ora-pro-nóbis: verdura que, em Mariana, tem outro nome. Na panela, o vocabulário dos antigos chega aos mais novos. “Nunca vamos deixar para trás as origens. Não é a história de Mariana só, é a história de Minas Gerais. É o que nós somos, o que comemos, o que passamos para as gerações”, afirma a historiadora Margareth Marton.
Valorizada, a herança se multiplica e faz valer ainda mais uma vida inteira dedicada a guardar sabedoria.
A reportagem percorreu casas da cidade e da roça. Foi numa fazenda, a 50 km de Mariana, que encontramos uma simpática senhora chamada Josefina, mais conhecida como Dona Lelé.
Lá onde mora, o telefone ainda não chegou, a água no tanque não tem nem torneira, vem direto da fonte e corre. Já é um sinal de riqueza pouco vista hoje em dia.
Numa cozinha pintada com o branco do cal, Dona Lelé revela os segredos passados pelas mulheres de sua família, de sua avó para sua mãe e de sua mãe para ela, ainda menina.
Emocionada por receber uma equipe de reportagem, Dona Lelé, mulher simples da roça, diz que nunca imaginava que isso poderia acontecer um dia.
Aos 73 anos, ela faz rotineiramente os tradicionais pratos que aprendeu a preparar ainda jovem com sua mãe e com cozinheiras mais experientes, preocupa-se em divulgá-los para que se perpetuem. Ela faz dos seus conhecimentos e habilidades na cozinha um meio de aumentar a renda de sua aposentadoria e realizar seus sonhos.
Seu dia começa cedo. Pela manhã, antes das 5h, já está com o fogão à lenha aceso e o café pronto. Além das lidas rotineiras da casa, prepara geléia de mocotó, merendas e outros quitutes que comercializa
A lista de receitas que Dona Lelé prepara é extensa: rocambole, broa, pé-de-moleque, pães, biscoitos, brevidade, cobu. Destacamos duas receitas, que saboreamos em sua casa, que eram feitas antigamente, mas hoje quase não se vêem e poucas pessoas ainda sabem fazer: o cobu e a brevidade de rapadura. O cobu também é conhecido como pau-a-pique e joão deitado.
A receita do cobu
Misture todos os ingredientes, deixando a massa com uma consistência mais mole. Colha folhas de bananeira, lave-as, seque, corte em quadrados grandes e passe no fogo para que amoleça e fique fácil de dobrar.
Pegue um quadrado de folha de bananeira, coloque uma concha da massa e enrole dobrando as pontas para que a massa não vaze. Leve ao forno quente.
Ingredientes
1kg de fubá de moinho d’água
1 rapadura derretida em forma de melado
½ kg de farinha de trigo
3 ovos
2 copos (americano) de coalhada caseira
500g de manteiga ou nata
2 conchas (de servir feijão) de óleo
suco de 1 limão
1 pacote de cravo da Índia socado no pilão, depois de torrado na chapa do fogão a lenha
1 colher (sopa) canela em pó
1 colher (sopa) de bicarbonato dissolvido em um limão
2 colheres (sopa) fermento em pó
1 pitada de sal
A receita da brevidade de rapadura
Raspe a rapadura e soque-a no pilão junto com o polvilho. Essa mistura pode ser feita no liquidificador. Acrescente os demais ingredientes e, na hora de levar ao forno, acrescente uma colher de sopa de fermento em pó. Leve ao forno, em temperatura média.
Ingredientes
1 rapadura raspada
1kg de polvilho doce ou azedo
7 ovos inteiros (para não dar cheiro de ovos, bata-os no liquidificador)
Raspas de limão
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Gustavo Werneck - Estado de Minas
Tiradentes - Difícil resistir às tentações da culinária mineira, um patrimô
nio recheado de história, temperado pela mais pura tradição e admirado por gente do Brasil inteiro. Quem visita as cidades coloniais, entre elas Tiradentes, no Campo das Vertentes, a 210 quilômetros de Belo Horizonte, tem de dispensar algumas horas para provar as delícias da terra, de preferência preparadas na boa panela de pedra, como mandam as sábias cozinheiras. Um dos pratos mais pedidos, no almoço ou no jantar, é o frango com quiabo, acompanhado de angu mole e arroz soltinho, quarteto fumegante e especial para o paladar. Uma iguaria das Gerais.
Em toda a Estrada Real, restaurantes simples e sofisticados mantêm a iguaria no cardápio. Em algumas regiões de mineração, o prato recebe o curioso nome de “xi com angu”. Contam que, lá pelos idos do século 19, antes de sair à noite para beber e jogar, os homens inventavam uma desculpa cheia de imaginação para ludibriar as mulheres. A conversa era: “O Chico nos convidou para comer um frango com quiabo e angu”. Daí, o “xi com angu”. Muitas horas depois, no raiar do dia, eles chegavam em casa e se desculpavam, na maior cara-de-pau. Em vez de frango, o tal Chico cozinhava um galo com quiabo e angu – a mentira colava e as mulheres engoliam, pois, como se sabe, essa ave demora horas para ficar pronta.
Na turística Tiradentes, na Trilha dos Inconfidentes, a cozinheira Elizabeth Batista Teixeira, a dona Beth, de 50 anos, sabe todos os segredos da gastronomia das Gerais. Criada numa família grande de 10 irmãos, ela via, ainda criança, a mãe Zélia pegar o frango no galinheiro, colher os quiabos bem frescos e depois dar início ao processo. Para tornar o serviço completo, agradar aos olhos e dar água na boca, todas as partes eram aproveitadas: das mais nobres (peito e coxa), às de pouca carne (asa, pescoço e pés).
Declarando-se “mineira até mandar parar”, Beth lembra que, na sua casa, as carnes de porco e de galinha eram as mais comuns, pois criavam-se os animais no quintal. Carne de boi, só no Natal”, conta. É dessa época que ela preserva um jeito muito próprio de fazer a comida. Para dar mais sabor ao quiabo, ela o refoga com pimentão cortado em cubinhos, deixando que dourem até secar. Com total sapiência, vai usando técnica e arte para evitar que o quiabo babe – uma delas é usar pouco óleo e dourar bem. “Enquanto cozinho o frango, preparo o quiabo. No fim dá tudo certo”, diz a cozinheira, que dirige, ao lado da filha, Marcela Cristina, de 26, o restaurante Sabor de Minas, no Largo das Forras, no Centro Histórico. Essa área central de Tiradentes é um verdadeiro paraíso para os admiradores dos genuínos petiscos mineiros e também do artesanato fino e dos doces de lamber os beiços.
Com os novos tempos, principalmente com a presença maciça de turistas paulistas, interessados em descobrir as belezas de Minas, muitos restaurantes da região passaram a usar só pedaços mais carnudos, deixando de lado o trio pé, pescoço e asa. Mas se o cliente fizer questão do frango completo, deve dar uma passada antes no restaurante e encomendar.
Fogo do chão
A história da culinária mineira, uma das mais originais do país, vem de longa data. E, até chegar ao frango com quiabo, cumpriu uma trajetória de resistência, testes e mudanças. Tudo começou com os primeiros desbravadores do território que, para não morrer de fome, aprenderam o necessário com os índios. Na busca por ouro e diamantes, e na falta completa de panelas, fogão e mobiliário, só lhes restava observar o que os povos indígenas comiam e seguir seus hábitos. Os alimentos, portanto, eram feitos à base de mandioca e milho.
De acordo com os pesquisadores, os alimentos eram assados, sem sal, no fogo do chão, que consistia num buraco onde ficavam as brasas. Sobre as labaredas, as vasilhas de barro, à moda indígena, eram penduradas em árvores com cipós. Tudo era comido com as mãos, na forma de “capitão”, com as pessoas sentadas no chão. Também era muito comum pôr os alimentos em espetos.
Com a confirmação de que a capitania era rica em ouro e diamantes, chegaram da África os primeiros negros, incluindo mulheres, para trabalhar na mineração. Novos modos de cozinhar se juntaram à culinária local, surgindo os pratos afro-indígenas. Muitos cativos trouxeram sementes de quiabo e, depois de colhê-los, passaram a comê-los misturados ao angu ou com a carne dos animais que caçavam. A banana-da-terra também era muito usada naqueles tempos e todos os doces eram feitos com o mel colhido nas árvores. Quando chegaram as galinhas e porcos trazidos pelos portugueses, o cardápio ficou mais variado. E apetitoso, como a mistura de frango com quiabo, perfeita tradução da hospitalidade mineira.
Mineral que fez de Aleijadinho, o maior expoente do barroco brasileiro, continua sendo fonte de criação de artistas, anônimos ou não, dos rincões de Minas Gerais
Ouro Preto - A pedra-sabão, que fez de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730/1814), o maior expoente do barroco brasileiro, também deu a Santa Rita de Ouro Preto, distrito da cidade-berço da Inconfidência Mineira, a 130 quilômetros de Belo Horizonte, o título de capital nacional da matéria-prima, cientificamente batizada de esteatita. Quase três séculos depois, as jazidas da região são a principal fonte de renda de boa parte dos moradores, que encantam turistas, principalmente estrangeiros, com as belas esculturas que retratam o rosto de Jesus e de vários santos, mas também figuras abstratas e objetos usados no dia-a-dia: jarros, panelas, fôrmas para pizza, porta-copos etc.
“A pedra-sabão é o coração de Santa Rita de Ouro Preto”, resume Reginaldo Rosa Guimarães, de 45 anos, que aprendeu o ofício, como a maioria dos artesãos da comunidade, ainda criança. “Nunca mexi com outra coisa. Assim, criei meus dois filhos.” Na oficina instalada atrás de sua casa, consegue o ganha-pão da família com a ajuda da mulher, dona Francisca Martins, de 44. Ela recorda que o primeiro contato com a matéria-prima ocorreu quando menina-moça. Hoje, experiente, leva pouco tempo para lapidar a rocha bruta. Em minutos, as ágeis mãos fazem esculturas que homenageiam São Francisco e outros discípulos de Deus. Mas seu maior prazer é dar forma a miniaturas do Cristo Redentor.
E, não por acaso, o Cristo original, imponente no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, também abençoa o distrito da cidade histórica, pois a imensa estátua, eleita uma das novas maravilhas do mundo, em 2007, é revestida com pastilhas de pedra-sabão de Santa Rita de Ouro Preto. “Na década de 1990, quando pedaços dele começaram a cair, foi feita a restauração. E as pastilhas de pedra-sabão foram buscadas em Santa Rita”, explica Flávio Orsini Nunes de Lima, proprietário da OPPS Mineração, empresa que participou da obra e que exporta peças produzidas no lugarejo para vários países da Europa e para os Estados Unidos.
Ele também aprendeu a manusear a rocha bruta com o pai. “Ele me ensinou e eu ensinei aos meus filhos. Criei todos os cinco com o dinheiro que a pedra-sabão me deu. Por diversas vezes, virei noite trabalhando”, recorda, enquanto admira, da janela de sua pequena casa, as peças que levam sua assinatura. Vizinho de seu Zé Campos, como os amigos o chamam, o artesão Cláudio Cunha, de 41, mais conhecido como Claudinho Pedra-Sabão, recebe muitos compradores de São Paulo e do estrangeiro. Os artesãos mais antigos explicam que a pedra-sabão pode ser macia – por isso também é conhecida por pedra-talco – ou mais resistente. Aleijadinho usou, principalmente, a segunda. Foi com ela que ele criou, por exemplo, os famosos profetas de Congonhas. A pedra-sabão é uma rocha compacta, composta de talco (também chamado de esteatite) e outros minerais, como magnezita, tremolita e quartzo. Não é muito dura, por causa da grande quantidade de talco. É encontrada em cores que vão do cinza ao verde. Dá a sensação de ser oleosa ou saponácea, derivando-se daí o nome de pedra-sabão. Os maiores depósito estão em Minas Gerais.

SANTA RITA DE OURO PRETO
Distrito de Ouro Preto
População: Cerca de 5 mil moradores
Fundação: Distrito criado em 1938
Distância de BH: 130 quilômetros
Distância de Ouro Preto: 30 quilômetros

2 - Depois de cortar os blocos em pequenos pedaços que serão transformados em cinzeiros, copos e outros objetos, o artesão cola a pedra-sabão numa base de ferro. Para isso, usa massa plástica, que demora cerca de 45 minutos para secar
4 - O artesão usa três tipos de lixa para retirar a camada grossa da peça recém-criada. “A de número 50 retira todo o ‘rústico’ da pedra. Em seguida uso a 100, que tira a camada grossa. Por fim, a 400, que dá o acabamento”, conta Guimarães, que, como a maioria, aprendeu o ofício ainda jovem
Fotos: Jackson Romanelli/EM/D.A Press
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"É um processo teoricamente bem simples, mas é feito a partir do leite cru, por isso de modo artesanal", disse. O pingo, o soro que o queijo libera na primeira noite, é adicionado para manter as características originais do produto pois a substância contém elementos que identificam o relevo, o clima e a vegetação da região e por isso é considerado o DNA do queijo. É o "pingo" que dá identidade ao queijo, sabor, textura e cor que diferencia um do Serro de um da Canastra; um de Araxá de um do Alto Paranaíba/Cerrado -microrregiões tradicionais e demarcadas pela Emater-MG(Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural).
No Serro, o queijo é menor, consumido mais fresco, tem maior acidez, coloração mais clara e consistência macia. Na Canastra, é maior e amarelado, além de ser consumido mais maturado. O do Alto Paranaíba/Cerrado e o de Araxá são parecidos com o da Canastra, porém mais suaves.
O queijo Minas é produzido de forma artesanal desde a época da mineração, no Século XVIII, feito à base de leite cru e fermento natural. É uma herança da cultura colonial mineira, tradição de mais de 300 anos que agora passa a ser considerada patrimônio nacional. A técnica foi trazida das regiões serranas de Portugal, principalmente da Serra da Estrela. O mais antigo do Estado é o queijo da Canastra, fabricado há mais de 200 anos que guarda semelhanças com o queijo portugues da Serra da Estrela.
O relevo das serras de Minas foi fundamental para a produção, já que a topografia não permitia aos exploradores da época a criação de gado para corte na região e também o comércio leiteiro. "O leite quando chegava nas planícies já chegava talhado. Então, o produtor da região sempre alega que a região convida a fazer queijo", disse a historiadora.
A fabricação de queijo é uma tradição diária nas regiões produtoras. Apenas na sexta-feira da Semana Santa ele não é feito, quando o leite é distribuído na vizinhança e destinado ao doce de leite e às quitandas.
Par perfeito em Romeu & Julieta e ingrediente indispensável do delicioso pão de queijo, o Minas corresponde a 50% da produção nacional, segundo a Associação Brasileira de Indústrias de Queijo (ABIQ). Frescal, Minas, do Serro e o da Canastra são os principais tipos fabricados no Estado. O produto é expressivo no PIB do agronegócio mineiro. Somente na região da Serra da Canastra, cerca de 1.100 produtores fazem, em média, 70 toneladas semanais, considerado o melhor para o preparo do pão-de-queijo.
“um Branquinho e um Violão” é o mais novo trabalho do jovem mineiro de Três Pontas, Heitor Branquinho (24).
Milton Nascimento & Fernando Brant